Parque Nacional Everglades: a natureza tenta sobreviver!

Parque Nacional Everglades

Todo ano, mais de um milhão de pessoas visitam o Parque Nacional Everglades para apreciar as maravilhosas demonstrações de beleza e força presentes na natureza. Aqui não há vistas assombrosas, como canyons de profundidade quilométrica ou penhascos altíssimos, nem majestosas cataratas para tirar fotos. Tampouco há alces americanos passeando na natureza, nem ursos pardos perambulantes a serem admirados a uma distância segura. Ao contrário, o local é o primeiro parque nacional do mundo criado por causa de sua biodiversidade, não por causa de uma rara beleza natural.

 

Parque Nacional Everglades
Via huffingtonpost.com

 

Biodiversidade em alta nos Everglades

Sendo parte pradaria e parte pantanal tropical, ele é chamado de “rio de capim”. Aqui, a vida para os seus habitantes há séculos prossegue no mesmo ritmo. Crocodilos de 3 metros de comprimento tomam banho de sol no calor úmido, de olho na próxima refeição. À noite, o pântano ressoa com os seus bramidos, e o chão treme quando eles realizam o ritual de acasalamento. Enormes tartarugas-marinhas rastejam lentamente no meio do capim, à procura de comida. Dividem o habitat com a ligeira e brincalhona lontra-norte-americana. Na lama macia, se veem pegadas recentes de pumas, ou suçuaranas, rondando à procura de caça. O cervo-de-cauda-branca precisa ficar sempre alerta, pois os pumas não perdem oportunidade para fazer dele a sua próxima refeição. Os mãos-peladas, vistos com frequência lavando o seu alimento nos córregos próximos, se refestelam na fartura de comida proporcionada pelo diversificado cardápio do parque.

 

Parque Nacional Everglades
Via LilBarnacle – Reddit

 

Existe também uma abundância de vida que passa praticamente despercebida aos olhos dos visitantes. Existem muitas variedades de rãs, camufladas sobre as folhas mortas no chão, sobre as folhas flutuantes dos lírios e sobre as belas orquídeas aquáticas dos canais artificiais. O molusco Pomacea arrasta-se literalmente a passo de lesma entre as plantas aquáticas. É do tamanho de uma bola de golfe, dotado de guelras e pulmão simples, o que lhe possibilita respirar dentro e fora da água. As águas rasas pululam de vida, com lagostins, caranguejos e vários tipos de peixe. Há cobras, insetos e outras criaturas rastejantes de montão, prontos para almoçar ou para virar almoço!

 

Parque Nacional Everglades
Via Eligoins – Reddit

 

Entre as aves estão os belos colhereiros-róseos, íbis-brancos e garças-brancas-pequenas que sobrevoam em círculos, enquanto seus pares sacrificam um passeio nas alturas para chocar os ovos. As garças-azuis são uma vista inesquecível: elas voam tão rápido sobre a sua cabeça, que nem dá para contar quantas são. Gaivotas, pelicanos e galinhas d’água dividem o espaço com a majestosa águia-calva, a ave-símbolo da América.

 

Parque Nacional Everglades
Via WhiteZoneShitAgain – Reddit

 

Parque Nacional Everglades
Via Harvo – Reddit

 

Há também o cormorão-de-crista-dupla, de pescoço comprido, e o biguatinga, ou pássaro-serpente, assim chamado porque, quando estica acima da água o longo pescoço, que tem formato de S, ele mais parece um réptil do que uma ave. Ambas as aves, vorazes por natureza, competem por alimento nas águas rasas dos charcos. Quando estão molhadas, tanto uma como a outra abrem as asas e espalmam as penas das caudas, exibindo-as ostentosamente, como que posando para uma foto. Elas só podem voar quando as asas ficam completamente secas.

 

Parque Nacional Everglades
Via BrentGoesOutside – Reddit

 

Parque Nacional Everglades
Via Financialbabe – Reddit

 

Sem querer passar despercebido, o carão, um pássaro parecido com o grou, assusta os visitantes com os seus gritos lamentosos. Essa ave grande, pardo-escura e estriada de branco, é chamada de ave chorona porque seus gritos se assemelham ao lamento desesperado de uma pessoa. Também é inesquecível o milhafre-everglades, uma rara ave de rapina do tamanho da gralha, ameaçada de extinção. Sua sobrevivência depende do molusco Pomacea, seu único alimento. Ao olharem para cima, os visitantes maravilham-se com um enorme bando de milhafres pousado nos majestosos carvalhos revestidos de folhas verde-brilhantes, debruados com filamentos de barba-de-velho. Flores verdes e vermelhas, dependuradas de delicadas trepadeiras vizinhas, misturam-se com as cores das aves. Os Everglades transcendem os limites geográficos de país e continente. É um mundo completamente à parte, quase um paraíso, com toda a sua beleza primitiva! Gostaria de conhecê-lo um dia?

 

Parque Nacional Everglades
Cervo-de-cauda-branca – Via pt.northrup.org

 

Parque Nacional Everglades
Puma – Via grandtsautorepair.com

 

Finalmente, as águas rasas e o capim dourado — a marca registrada dos Everglades. Até onde os olhos conseguem alcançar, este silencioso rio de capim, que cintila e brilha e parece quase plano, flui para o sul — com um declive de apenas quatro centímetros por quilômetro. De forma imperceptível, sem correnteza, a água flui perene e sem pressa em direção ao oceano. É o Nilo dos Everglades — sem ele, não haveria vida neste lugar.

 

Parque Nacional Everglades
Mão-pelada – Via pt.wikipedia.org

 

No início do século, antes de o homem danificar e desfigurar os Everglades, esse mar de capim media 80 quilômetros de leste a oeste, e estendia-se por 500 quilômetros, do rio Kissimmee à baía da Flórida. Um homem de estatura mediana pode vadear essa distância sem molhar os ombros. Barcos velozes cortam a superfície das águas rasas através do capim dourado alto, empolgando os turistas. Pescadores vêm atrás de perca e de outros peixes de água doce e de água salgada, como fazem há gerações.

 

Parque Nacional Everglades
Pomacea – pt.wikipedia.org

 

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Um grito desesperado de socorro!

Por volta do começo deste século, políticos e empresários da Flórida acharam que os Everglades eram um charco inútil, habitado por criaturas indesejáveis, que deveria ser “restaurado” para possibilitar o loteamento, expansão urbana e desenvolvimento agrícola. Seu lema era ‘construir barragens, diques, drenar a área e desviar o curso das águas’. Em 1905, antes de ser eleito governador da Flórida, N. B. Broward prometeu solenemente secar completamente “o pântano pestilento”.

 

Parque Nacional Everglades
Colhereiro-róseo – Via oboi-na-stol.com

 

E não ficou só em palavras. Enormes escavadeiras e equipamentos de dragagem foram utilizados. Sob a direção e a supervisão do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos, foram escavados 90 quilômetros de canais com 9 metros de profundidade, destruindo mais de um milhão de metros quadrados de alagados. Construíram-se enormes barragens, diques e estações de bombeamento de água e mais canais e estradas cruzaram os Everglades. Águas preciosas e vitalizadoras foram desviadas dessa região rica em biodiversidade para irrigar grandes áreas de terra que foram destinadas à agricultura. Cidades costeiras também se expandiram em direção ao oeste, roubando mais espaço dos Everglades para a construção de grandes conjuntos habitacionais, rodovias, shopping centers e campos de golfe.

 

Parque Nacional Everglades
Íbis-branco – Via commons.wikimedia.org

 

Embora partes do Parque Nacional Everglades tenham sido declaradas protegidas em 1947, a drenagem e o desvio das águas continuaram a um ritmo ruinoso. Os ambientalistas concordam que drenar os Everglades, e gastar milhões de dólares nesse empreendimento, foi uma grande tolice. Poucos compreendiam que interferir no curso das águas teria um impacto devastador na vida dos Everglades. Levou décadas para que os estragos aparecessem!

 

Parque Nacional Everglades
Garça-azul – Via sites.google.com

 

Em meados da década de 80, porém, os ambientalistas e biólogos soavam o alarme de que os Everglades estavam morrendo. Parecia que toda a vida ali dava o seu grito de protesto, clamando por socorro. Bebedouros onde viviam os crocodilos começaram a secar nas épocas de estiagem. Quando vinham as chuvas e a área ficava inundada, os seus ninhos e ovos eram carregados pelas águas. Agora a população de crocodilos ficou bem reduzida. Há relatos de que eles estão comendo as suas crias. Exóticas aves, que no passado contabilizavam mais de um milhão naquela área, ficaram reduzidas a milhares: uma diminuição de 90%. Os belos colhereiros-róseos que antes escureciam os céus quando retornavam aos seus locais de nidificação viraram raridade. Desde a década de 60, o número de cabeças-secas caiu de 6.000 aves que nidificam para apenas algumas centenas, ameaçando a espécie de extinção. Também estão ameaçados os ricos viveiros da baía da Flórida, da indústria de mariscos do Estado. De acordo com certa fonte, a população de todos os outros vertebrados, desde cervos até tartarugas, diminuiu de mais de 95%!

 

Parque Nacional Everglades
Galinha D’Água – Via floraefauna.wordpress.com

 

Com a constante invasão da agricultura e outras atividades humanas vieram os poluentes do escoamento de fertilizantes e pesticidas que, devagarzinho, contaminaram o solo e a água. Altos índices de mercúrio foram detectados em todos os níveis da cadeia alimentar, desde peixes nos alagados até mãos-peladas, crocodilos e tartarugas. Os pescadores são alertados a não comer perca e outros peixes como cascudos e bagres de certas águas que estão contaminadas com mercúrio que vaza do solo. Os pumas também se tornaram vítimas da invasão do homem, sendo mortos não só por intoxicação por mercúrio mas também por caçadores clandestinos. Muitas plantas nativas dos Everglades também estão desaparecendo.

 

 

Parque Nacional Everglades
Águia-calva – Via listonas.com.br

 

Parque Nacional Everglades
Cormorão-de-crista-dupla – Via maciejkowalski-birds.blogspot.com

 

Extinção no Parque Nacional Everglades

Alguns observadores e ambientalistas acreditam que os Everglades talvez tenham chegado a um ponto além de recuperação. Autoridades do governo e do parque e muitos ambientalistas acham, no entanto, que com fundos e pronta ação por parte dos órgãos federais e estaduais, o parque possa ser salvo. “Ninguém realmente sabe quando algo tão grande e complexo chega a um ponto além de recuperação”, disse certa autoridade. “Isso talvez já tenha acontecido”. O biólogo John Ogden admite que a possibilidade de recuperar os Everglades não é muito promissora, mas ele está otimista. “Tenho de estar”, disse. “A alternativa é um deserto biológico, com um restinho de parque com alguns crocodilos aqui, alguns ninhos de aves acolá e um bom museu com um puma empalhado como peça de destaque”.

 

Parque Nacional Everglades
Biguatinga – Via sosma.org.br

 

A questão crucial é sem dúvida a água. “O segredo do sucesso é água limpa, e em abundância, escreveu U.S.News & World Report, e “isso pode vir a acontecer apenas sacrificando-se a agricultura e as áreas urbanas. As plantações de cana-de-açúcar e a horticultura do sul da Flórida são os alvos mais prováveis”. “Será difícil repartir as águas, mas nós já cedemos muito, e não podemos ceder mais nada”, declarou Robert Chandler, superintendente dos Everglades. “Os outros também precisam levar a preservação a sério”, disse. Os que propõem a restauração do parque temem que a maior resistência virá por parte dos donos de plantações de cana-de-açúcar e dos agricultores da Flórida, que têm enormes propriedades nos Everglades. Para suprir as suas necessidades, grande quantidade de água do Parque Nacional Everglades está sendo canalizada, sacrificando-se a riqueza biológica do parque.

 

Parque Nacional Everglades
Carão – Via avespantanal.com.br

 

Acredita-se que a ‘luta’ — os agricultores e os proprietários de plantações de cana-de-açúcar de um lado contra os biólogos, ambientalistas e amantes da natureza do outro — continuará, como acontece em outras partes dos Estados Unidos, onde as mesmas facções estão sempre se confrontando! Esperamos que o Parque Nacional Everglades continue a existir com a bela e intensa luta da natureza pela sobrevivência!

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